Há campos de trigo imensamente vastos, sob um céu lúgubre... e não desisti ainda de tentar expressar a tristeza e a solidão mais extrema... Chego quase a acreditar que essas pinturas dirão a você aquilo que não consigo por em palavras... (Van Gogh para Theo)
28.02.06
Amanhã não tem mais

Se você está aí navegando hoje, terça-feira gorda, provavelmente não gosta de carnaval. Ou está só dando um tempo para ver se pinta na caixa postal um sinal daquela troca de e-mails depois de um bloco. Ou descansa da folia tentando entender, pelo mundo afora, por que aqui, no Bananão (copyright by Ivan Lessa), esta época do ano pode ser resumida numa algaravia – palavrinha bonita, que poderia entrar em samba-enredo – de marchinhas que quase ninguém sabe mais, axés aeróbicos e refrões de animar torcida de futebol.

28.02.2006, por Paulo Roberto Pires No Mínimo.



“É hoje só, amanhã não tem mais”, diz o grito de guerra que é quase um mantra nesta época em que, mais do que promessa de felicidade, o carnaval é um desespero público pela alegria, um berrante afago em nossas combalidas auto-estimas e, finalmente, um pouco de descalabro no papai-mamãe do dia-a-dia. A felicidade, que como diz “Cicatrizes” é um dom natural, também pode ser, ainda na mesma música de Paulo César Pinheiro e Miltinho, “uma, qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é carnaval”. É isso aí.

É hoje só para os que, como este que vos digita, acredita que o que se chama “ano” é o intervalo sem graça entre dois carnavais. Para a menina bonita que, cansada de dar beijo na boca em bloco ou escola de samba, sonha com um carnaval na praia, talvez longe da folia mas perto daquele amor que nunca vem. Para o grupo de senhoras que, depois de um hora chacoalhando num ônibus ou trem, só arreda pé da Cinelândia quando o Bola Preta completa seu desfile. Para o bebum que descansa como um justo nos degraus de uma igreja de Olinda, embalado pelo frevo que come solto nos Quatro Cantos.

Se todo mundo está atrás da alegria, certamente é porque ela faz falta, porque algo precisa ser preenchido na vida de cada um. Este déficit de felicidade percebi quando, convidado a julgar a melhor fantasia no baile do Carioca da Gema, entrei na casa de samba carioca à paisana, ou seja, fantasiado de mané trabalhador. Praticamente um ET em meio a melindrosas, Minnies, Peter Pan e até um gaiato fantasiado de Teresa Cristina – e idêntico à cantora. Assim, de fora, enxerga-se melhor que carnaval é busca por uma realização imediata, um anabolizante da alma.

Na Mangueira ou na Rio Branco, em Olinda ou Salvador, no Simpatia é Quase Amor ou na Banda de Ipanema, esta alegria histérica tem mesmo um pouco de tristeza. Que fica clara quando toca “As pastorinhas”, “Carinhoso” ou “Máscara negra”. E não é tão óbvia nos animadíssimos frevos – desde sempre inevitavelmente melancólicos – ou na voz emocionante e hoje tão esquecida do grande, imenso, Roberto Ribeiro.

Mas a sabedoria do samba ensina: para cada “É hoje só!” vai ter sempre um “Este ano não vai ser igual àquele que passou”. E, no resguardo da quarta-feira de cinzas, a ressaca da folia pode nem trazer aquele campeonato que a Portela tanto merece, mas renova a promessa de felicidade. Qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é carnaval.

28.02.2006, por Paulo Roberto Pires

Rosana: 16:48
comentários

aleluia!!!! feliz 2006!!!!!!!!!!!!!

: 01.03.06 08:12
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